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Amar a vida

por Paula Antunes, em 04.02.06
Este artigo saiu no J.N. de 29 de Janeiro, vem um bocadinho atrasado, mas como o conteúdo é muito actual, ou melhor, intemporal, aqui vai. Gosto muito dos escritos deste senhor.


“A morte é uma experiência cada vez mais tardia na vida da maioria das pessoas. Também as experiências de sofrimento são, aparentemente, menos constantes e mais raras, tornando o vulto da morte (que trazem consigo) mais longínquo, mais estranho e, até, mais domesticável. Realmente, a relação com a morte mudou, profundamente, no século XX. Mas não é porque se morre menos que se vive mais. Como também não é por ser menor o sofrimento que a felicidade, só por si, o derrota, se expande e é maior.


Há uma diferença grande entre temer a morte e amar a vida. Temer a morte deixa-nos em dívida com a vida. Torna-nos minúsculos. Compenetrados dos nossos papéis. Falsos e complicados. Correndo à frente da angústia com que, devagarinho, o medo da morte conversa dentro de nós. Amar a vida deixa-nos gratos por tudo o que a morte torna (ao correr da luz) mais bonito, mais simples e mais fácil, e mais perto da verdade.



Temer a morte deixa-nos levar pelas marés de todos os dias. Amar a vida desafia para as aproveitarmos nas rotas onde nos queremos ao leme.



Temer a morte junta-nos em função de uma perda, da dor ou do sofrimento. Amar a vida liga-nos pelo prazer e pelos sonhos, pela paixão e pelo peito (sempre que se abre a um bocadinho de mais alguém).



Temer a morte leva-nos a desprezar, sem dar por isso, os pequenos gestos de todos os dias (os que partilham a ternura, os que surpreendem e aconchegam e, até, os que adivinham) e a aparecer só quando somos precisos. Amar a vida torna tão imprescindível quem não está, em quase todos os momentos, quanto o desejamos ser (quase sempre) em quase tudo, para si.



Temer a morte leva a manter as relações que nos deixam sozinhos. Amar a vida a procurar quem nos acompanhe por dentro (mesmo quando, por fora, está junto de nós). Daí que manter uma ligação pelo medo de ficar só nos deixe comodamente infelizes, numa solidão assistida, e confiarmo-nos – movidos pela convicção de multiplicar de vida tudo o que sentimos – nos torne, ao mesmo tempo, mais livres, mais luminosos e vinculáveis.



Temendo a morte, idealiza-se a vida. E a perfeição do outro torna-se o refúgio de quem de tudo o que tenha para dar. Amando a vida, aceita-se que há – sempre! – alguém mais bonito do que nós e mais, ainda, do que a pessoa de quem mais gostamos. E, mais importante do que encontrar, de entre todas, a mais perfeita, preciosos é, antes, transformar num planalto (cada vez mais alto) a relação mais inimitável.



Temer a morte é viver guardando os sonhos (escovados e dobrados) nas traseiras de todos os dias. Amar a vida é fazer com eles uma varanda com vista para o mar. “



Eduardo Sá (psicólogo)




Eu subscrevo as suas palavras.

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Publicado às 14:28


My Way: "Two roads diverged in a wood, and I, I took the one less traveled by. And that has made all the difference"

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